Cor Scorpii – Erguendo-se das ruínas

Após 10 anos de interrupção nos lançamentos, renascem com «Ruin».

Info: Cor Scorpii
Entrevista: CSA

Olá, Thomas! Este álbum – o segundo de Cor Scorpii – é muito interessante e soa como se fosse bastante “antigo”. Que elementos musicais dele podem dar essa impressão ao ouvinte?

Thomas – Olá e obrigado! Encaro o que dizes como um elogio! Estamos a ficar mais velhos. Talvez por isso soemos a algo “antigo”? Não, penso que apenas fazemos música de forma tradicional. Escrevemos música de qualidade, com muitas camadas de som, que lembra Heavy Metal clássico (ou neoclássico?), Black Metal e até música clássica. Não fazemos nada que seja moderno. Focamo-nos em sermos honestos na nossa forma de escrever canções e não temos a pretensão se fazer parte de qualquer cena ou tendência musical. Além disso, parece-me que as nossas preferências sonoras vêm mesmo do passado. Talvez isso faça com que o nosso som pareça “velho”.

 

De «Monument» a «Ruin»! Até os títulos dos dois álbuns evocam tempos antigos.

– Por que escolheram esses títulos para os vossos álbuns?

Houve várias razões que levaram a essas escolhas. Antes de mais, o facto de se adequarem aos conceitos musicais e líricos que tivemos em conta para dar forma a estes álbuns. O primeiro – «Monument» – constituiu mesmo um monumento para nós. Foi o nosso primeiro álbum com esta banda e o culminar de um longo e intenso processo de escrita e ensaios. Outro facto curioso é que os títulos dos dois álbuns se escrevem da mesma maneira em Norueguês e Inglês.

– Há alguma continuação, alguma relação entre este álbum e o primeiro?

Há uma certa correlação entre os álbuns, no que diz respeito às letras e aos conceitos. O processo de composição de «Ruin» foi muito diferente do de «Monument». Levámos muito mais tempo (10 anos…), lutámos muito mais e, de um modo geral, foi um processo muito penoso e cansativo. Eu penso muito por metáforas e, na minha opinião, tivemos de reconstruir o nosso monumento. Tínhamos de satisfazer as nossas ambições e acomodarmo-nos às nossas novas situações. Por volta da altura em que lançámos «Monument» e logo a seguir, vários de nós constituíram família e iniciaram carreiras noutros campos.

– Podes elucidar-nos sobre os tópicos abordados nas letras? E, a propósito, quem as escreveu?

Eu escrevi todas as letras para este álbum. Desta vez, decidi escrever metade em Norueguês, sobretudo como um desafio e um modo de me obrigar a ser honesto e pessoal na minha forma de me exprimir. Foi algo difícil de fazer. Parecia-me quase impossível distanciar-me de mim próprio e, por vezes, senti que estava a expor-me demais. Mesmo assim penso que consegui tornar um tanto opaco o que escrevi e manter os meus sentimentos relativamente abstratos para a maioria das pessoas. Neste álbum, exploramos algumas das emoções que abordámos no anterior: sentimentos de desespero, frustração, ira, ódio, luxúria e determinação. Uns ligados a fatores internos e outros, a fatores externos.

A vossa editora sugere que a música clássica é uma grande influência para Cor Scorpii.

– Na vossa opinião, é assim mesmo?

A música clássica foi sempre uma influência importante para muitos de nós. Não posso especificar a que ponto influenciou a composição das canções para este álbum, mas posso dizer que gostamos de ouvir esse tipo de música. Pessoalmente, sou um grande apreciador de várias formas de música clássica, mas tenho de admitir que tenho uma nítida preferência por tudo o que é tenebroso e bizarro e talvez pelos compositores mais “modernos”: Rachmaninoff, Satie, Sakamoto, etc. Posso juntar a estes Jocelyn Pook e vários compositores de música para filmes, como Max Richter, que constituem uma extensão do formato “clássico”.

– Quem é o compositor da banda? É alguém que tenha uma formação clássica em música? (Não é raro, embora muitas pessoas pensem que é incompatível com o Metal.)

Na banda, temos três compositores. O Rune (guitarrista) o Inge Jonny (baixo e acordeão) e o Gaute (teclados) escreveram canções para os nossos álbuns. Nenhum deles tem uma formação em música.

– Também gosto do lado Folk da vossa música. De onde vem? Dado que misturam influências clássicas e folclóricas, não se poderá dizer que são românticos (no sentido estético do termo, é claro)?

Não tenho a certeza de que se possa dizer que a nossa música tem uma faceta Folk. Essa sensação tem a ver com as melodias e a forma como são criadas. Vimos todos de uma zona rural e esse fator pode afetar a nossa criação musical. É claro que uma parte da nossa inspiração está relacionada com esse tipo de som. É evidente que nos inclinamos para uma estética romântica e, por vezes, sinto que nos aproximamos de músicos como Edvard Grieg ou Geirr Tveitt, embora a qualidade da música não possa ser comparada, é claro. Mas, em termos estéticos, somos românticos, sem sombra de dúvida!

“[] Escrevemos música de qualidade, com muitas camadas de som, que lembra Heavy Metal clássico (ou neoclássico?), Black Metal e até música clássica. […]”

– Onde foram buscar a Annika Beinnes e como a convenceram a cantar no vosso álbum?

Ela é da mesma zona que o nosso guitarrista Erlend. Já tínhamos ouvido falar dela várias vezes e fantasiado com a ideia de a convidar para trabalhar connosco. É muitíssimo talentosa e muito jovem. Quando já tínhamos tomado decisões concretas quanto aos arranjos e concretizado melhor algumas das nossas ideias, convidámo-la e ela ficou encantada por poder cantar connosco. Na altura em que a gravação foi feita, tinha 17 anos. Foi para o estúdio e tratou de tudo. Algumas das melodias já estavam prontas antes de a termos convidado, mas, na ocasião, ela criou belas harmonias e até improvisou em algumas partes. Estamos maravilhados por termos podido contar com a sua colaboração neste álbum.

Imagino que a participação do Mats Lerberg foi mais fácil.

É um amigo de longa data. Encarregou-se da voz limpa em «Monument» e também tocava em Funeral com o nosso guitarrista Erlend. É um músico de múltiplos talentos e ficou muito feliz por nos ajudar. Veio para o estúdio, quando estávamos a terminar a gravação das partes vocais e colaborou da mesma forma que no álbum anterior. Já agora, recomendo-te que vejas a sua nova banda: I Swear Damnation.

 

A capa do álbum é muito cinematográfica.

– Trata-se de uma foto? Foi um de vocês que posou como uma espécie de vagabundo entre ruínas? Quem convidaram para a fazer?

Também me parece que a capa é muito cinematográfica. Foi criada pelo designer indonésio Novans Adikresna, que encontrei por acaso no Instagram.  Estávamos à procura de um artista que pudesse fazer-nos o trabalho num prazo brutalmente curto. Não se trata de uma foto, mas de uma ilustração criada com recurso a uma técnica digital, que eu não compreendo. Consiste em usar vários elementos para criar uma nova imagem. É muito impressionante.

Por falar de aspetos gráficos, adoro o vosso logo. Tem tudo a ver com o nome da banda. Quem o fez?

Obrigado. Também gostamos muito do nosso logo! É bastante peculiar. Foi feito por um amigo nosso, da África do Sul, que também fez a capa para «Monument». Chama-se Stephen Green. É um desenhador verdadeiramente talentoso.

E por que razão se interessam tanto por escorpiões que os escolheram para fazer parte do nome da banda?

O nome faz referência à estrela vermelha que faz parte do signo do Escorpião. Começou por ser um nome de trabalho para o projeto, antes de se converter numa banda. Quando começámos a pensar num nome definitivo, estávamos tão habituados a este que decidimos mantê-lo. Faz sentido para nós.

 

Estamos quase no verão, a altura ideal para festivais, inclusive no universo do Metal. Já contrataram Cor Scorpii para alguns deles? E para concertos? Se pudessem escolher, com quem gostariam de tocar?

Infelizmente, só nos contactaram para participar num festival – o Karmøygeddon Metal Festival – que acabou de ter lugar. As gravações demoraram mais alguns meses do que o previsto, o que baralhou um bocado os nossos planos para 2018. Esperamos compensar em 2019. E houver promotores de festivais interessados em ter Cor Scorpii nos seus palcos, agradecemos que nos contactem. Penso que temos um espetáculo de qualidade acima da média para lhes apresentar. Quanto a dizer com quem gostaríamos de tocar, isso parece-me difícil! Somos fãs de música e gostamos de muita coisa. Penso que podemos trabalhar com qualquer banda!

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