Dautha – Os cronistas dos pobres

Foi este o ponto de vista que adotaram no seu Epic Doom, que usa a Idade Média como um pretexto para refletir sobre os tempos atuais e o destino da humanidade.

Info: Dautha
Entrevista: CSA

Photo: Christer Gustafsson

Olá novamente, Ola! Já te entrevistei sobre o primeiro lançamento de Dautha: a vossa demo intitulada «Den Förste». Agora volto à carga para “falarmos” sobre «Brethen of the Black Soil», o primeiro álbum.

O que têm eles em comum? E o que os separa?

Ola Blomkvist – Olá, Cristina! É um prazer aparecer de novo na Versus! Penso que, de um modo geral, o álbum dá seguimento à demo, que não há grandes mudanças a registar no que diz respeito ao nosso som. Mas talvez quem está de fora o veja de forma diferente, já que é difícil criar uma distância crítica em relação ao seu próprio material. Para mim é claro que continuamos a tocar Epic Doom acompanhado por violinos e a tratar temas medievais nas letras e no artwork. No entanto, admito que a demo seria mais crua do que o álbum, no que concerne aos instrumentos, e a sua produção também é um pouco mais “suja”. «Brethen of the Black Soil» é mais profissional. Além disso, no álbum não aparecem samplings na intro, como acontecia na demo. Outro aspeto que os pode separar é o facto de o trabalho vocal, a nível de background e de coro, ser mais elaborado. Por último, o álbum inclui a faixa “Bogbodies”, que é mais tenebrosa e experimental que todo o resto do material do álbum.

 

Fizeste muita investigação histórica para escolheres os temas das canções e escreveres as suas letras?

Sim, sobretudo para “The Children’s Crusade” e “Maximinus Thrax”, as faixas que se referem a factos históricos mais obscuros. Para escrever as letras da primeira, comprei e li o livro que tem o mesmo título, da autoria de Gary Dickson. O autor apresenta uma visão muito crítica deste acontecimento e contextualiza-o, o que me ajudou muito. Posto isto, optei por aprofundar o lado mais mito-histórico desta tragédia na letra que escrevi para a canção, com o propósito de criar uma boa narrativa. Para “Maximinus Thrax”, não havia livros, pelo menos na altura em que escrevi a respetiva letra, muito simplesmente porque ninguém tinha pensado em escrever sobre esta personagem grandiosa, por muito estranho que pareça. No entanto, Maximinus tem sido referido em livros e crónicas (como, por exemplo, a “Historia Augusta”, de qualidade muito dúbia), mas sempre de passagem e de forma muito breve. Dá para desconfiar de que foi vítima do antigo costume romano – designado pela expressão “damnatio memorae” – dado não ter sido um imperador popular, pelo menos entre os membros da elite/Senado… De qualquer modo e de forma bastante irónica, assim que acabei de escrever a letra para a faixa que lhe dizia respeito, vi um anúncio de um livro que se gabava de ser a primeira biografia do meu imperador favorito: “Maximinus Thrax – From Common Soldier to Emperor of Rome”. de Paul N. Pearson. É claro que me apressei a comprá-lo. Contudo, não era tão informativo como eu esperava, pelo que a sua leitura não me levou a modificar o que tinha escrito. Mais uma vez, apostei numa boa narrativa (baseada na “Historia Augusta”) e não numa dissertação académica convertida em letra de uma canção.

 

“[] o álbum dá seguimento à demo […] continuamos a tocar Epic Doom acompanhado por violinos e a tratar temas medievais nas letras e no artwork. […]”

 

Falando agora da música do álbum…

– Como adaptaram a música das canções às suas letras?

Esse trabalho é feito por mim e pelo Lars e, geralmente, começa comigo a apresentar-lhe uma primeira versão do poema que escrevi e a sua fundamentação histórica. Então, ele procura articular as minhas palavras com a música, o que leva à desconstrução do poema e à criação da verdadeira letra da canção. Algumas linhas ficam como estavam no início, mas outras têm de ser radicalmente alteradas, para que a magia do Lars dê forma à canção. Contudo, preocupamo-nos sempre em garantir que a ideia principal da narrativa fique intacta, mantendo o seu poder original. Por vezes, como aconteceu com “Maximinus Thrax”, trabalhamos de forma diferente e invertemos o processo, o que significa que o Lars me apresentou uma melodia vocal e eu escrevi a letra a partir dela.

 

– Como interagem com os outros membros da banda para compor a música?

O nosso processo de composição também é iniciado por mim. Eu apresento um riff ou uma canção completa ao Micael, ao Lars, ao Emil e ao Erik. Depois juntos experimentamos o material nos nossos ensaios, momento esse em que eu explico aos outros de que forma vejo a canção e o tipo de atmosfera que temos de criar para ela. Depois cada um acrescenta as linhas para os seus instrumentos: bateria, baixo, solos e harmonias de guitarra e vocais. Todos tomam parte no trabalho de fazer os arranjos para as canções. Em Dautha, compor é um esforço coletivo que funciona mesmo bem, sobretudo porque nenhum dos membros da banda tem problemas de ego (mas não perguntes aos outros) e também porque já somos músicos experientes, à exceção do Erik, que só tem 22 anos… No entanto, apesar da sua juventude, consegue surpreender os mais velhos todos os dias.

O que há de música medieval neste álbum de Doom Metal lançado por Dautha?

Desde já admito que a percentagem de influências Folk e medievais na nossa música é muito baixa, à exceção da intro de “The Children’s Crusade”. O lado mundano e medieval está presente nos temas das canções e também na minha mente, quando crio os riffs para as canções (ideia que te pode parecer pretensiosa). Resultam da inspiração que retiro das minhas visitas a locais históricos, das leituras que faço sobre História e do tempo que passo a ouvir música tradicional. Às vezes até me parece que perceciono matizes medievais na nossa música, apesar de os outros só ouvirem Epic Doom Metal. Mas eu consigo viver com isso e também me consolo a pensar que o próximo álbum vai ser mais Folk, embora nunca de forma a parecer-se com o Folk Metal comercial dos tempos atuais.

 

Mais uma vez, têm convidados neste álbum (por exemplo, em “The Children’s Crusade”.  Quem são esses músicos e como os conheceram?

Rikard Larsson, Kristian Karlsson, Thomas Sabbathi, Åsa Eriksson-Wärnberg e as crianças de Finspångs Kulturskola. O Rikard Larsson e eu conhecemo-nos desde os tempos de Griftegård, em que ele fazia o coro e cantava em background. A voz angélica do Rikard faz-se ouvir em todas as faixas de «Brethren Of The Black Soil», à exceção de “Bogbodies”. Sentimo-nos muito felizes por podermos dar-nos ao luxo de trabalhar com o Rikard, que não tem igual no que toca a fazer o coro de uma canção e aos arranjos. Kristian Karlsson produziu e gravou o álbum e também é dono de uma voz etérea, que pode ser ouvida em “The Children’s Crusade”. Além disso, encarregou-se de todas as passagens de sintetizador que se ouvem no álbum. O Kristian é um génio criativo, muito imediatista e sempre consciente do que se pode fazer para dar mais brilho a uma canção. Thomas Sabbathi é o vocalista de Griftegård e um dos meus amigos mais chegados, assim como um músico maravilhoso, o que todos os que o ouviram cantar e tocar guitarra em Year Of The Goat já sabem, com toda a certeza. Canta o refrão em “Bogbodies” e também contribuiu com pequenos arranjos e algumas linhas melódicas de voz para “The Children’s Crusade” (na parte introdutória). A nossa grande violinista Åsa Eriksson Wärnberg é amiga do Lars e ensina música na Finspångs Kulturskola, cujo coro infantil pedimos emprestado. Åsa escreveu uma melodia de sonho para o violino em “Bogbodies” na hora, no próprio estúdio, e também a podem ver no vídeo que fizemos para “Hodie Mhih Cras Tibi”.

 

A propósito de vocais, o Lars conseguiu ser verdadeiramente dramático na sua interpretação das canções de «Brethen of the Black Soil». Concordas comigo?

Sim, ele captou na perfeição a essência do tema das letras. Uma canção que trata do efeito igualitário da morte (neste caso relacionada com a Peste Negra do séc. XIV), apresentado do ponto de vista de um servo falecido, exige drama. Além disso, nós tocamos Epic Doom.

Encontraste a capa do álbum no mesmo manuscrito onde foste buscar a de «Den Förste»? O que representa essa ilustração?

Não. Todas as ilustrações usadas no layout do álbum foram tiradas de uma reedição de uma outra obra medieval cujo título prefiro não revelar. Mas posso dizer que o artista que fez as ilustrações se chamava K.Oertel. A ilustração que pusemos na capa do álbum representa a vaidade das vaidades, ou seja, a futilidade de que toda a atividade humana face à morte, ideia essa que se articula na perfeição com a mensagem subjacente a todas as faixas do álbum.

 

Que planos tem Dautha para fazer chegar este álbum aos fãs?

Para ser franco, não previmos grande coisa. Neste momento, não temos possibilidades de fazer concertos, sobretudo devido às nossas agendas individuais. O Lars conseguiu o papel principal num musical que vai ser feito em Inglaterra intitulado Krankenstein (krankensteinshow.com) e eu fui recentemente pai pela primeira vez. Logo não temos muito tempo para ensaiar o suficiente para podermos dar aos nossos fãs o que eles merecem, pelo menos durante este ano.

Se pudessem vir a Portugal, há alguma banda nacional com quem gostariam de tocar?

Moonspell. Pode parecer uma resposta muito óbvia, dada a sua grandeza e influência, mas sou fã deles desde o «Wolfheart». Embora não possa dizer que tenha gostado de tudo o que lançaram desde essa altura, continuo a pensar que fazem canções verdadeiramente belas, de quando em quando.

 

Já têm material para o Segundo álbum?

Sim, de facto já preparámos muito material para esse álbum e devo dizer que muito dele foi composto durante o frenesim criativo desencadeado por «Brethren Of The Black Soil». Agora só precisamos de tempo para ensaiar devidamente esse material, o que vai demorar algum tempo, devido às circunstâncias que já referi.

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