Grabak – O peso do feminino

Parece ser um elemento importante na discografia mais recente desta banda alemã.

Grabak

Info: Grabak
Entrevista: CSA

O Black Metal é o meu género musical favorito, portanto já entrevistei muitas bandas desse estilo. Podes dizer-me o que singulariza Grabak?

  1. K. – Essa é mesmo uma boa pergunta. Talvez seja o facto de sermos uma das poucas bandas alemãs das que surgiram nos anos 90 que ainda estão ativas, sem ter sofrido alterações entretanto. Concentramo-nos no nosso próprio legado e estamos continuamente à procura de sermos melhores. O Black Metal não é só um estilo de música. Se o ouvires durante décadas e o criares durante 22 anos, vais compreender que é um estilo de vida ou a melhor parte da vida de cada músico. Mas será isto algo único? Quanto mais penso nisso, mais me apercebo de que não há nada verdadeiramente único em Grabak… a não ser o facto de sermos autênticos, isto é, de nunca termos querido agradar a todos em termos musicais e de nos termos mantido fieis a nós mesmos.

 

A propósito, o que significa o nome da banda?

O nome Grabak saiu da antiga mitologia alemã e nórdica. Foi tirado do Edda – uma antiga coletânea de poemas sobre os deuses nórdicos. É o nome da maior serpente que vive nas raízes de Yggdrasil. Se se traduzir o nome para Inglês, dará qualquer coisa como Dorso cinza.

 

Na capa do vosso álbum e também numa das fotos promocionais, vê-se uma mulher crucificada de pernas para o ar. Qual é a relevância desta imagem para a interpretação de «Bloodline Divine»?

A ideia subjacente a essa imagem é perverter ou inverter o conceito de que um homem crucificado possa ser a base de um movimento religioso. Pensemos no seguinte. Em quase todas as religiões baseadas em Abraão, as mulheres desempenham um papel muito suspeito. Por um lado, são mães, vistas como santas, porque deram à luz heróis, chefes e mártires. Por outro lado, é-se levado a vê-las como seres culpados, que tentam os homens com os seus atrativos femininos. Quando quiseres, invertes a moeda, o que revela a forma ambivalente e ameaçadora como as mulheres são tratadas. Contudo, para mim é absolutamente fascinante ver como a religião é frágil, bastando uma única mulher a favor ou contra para abalar o conceito até ao seu núcleo. Sei que o problema deriva do facto de a Santíssima Trindade não ter lugar para a atração feminina ou o seu esforço ou impacto. Mas gosto da ideia de promover essa cisão que faz ruir todo o edifício.

 

Em que outros aspetos do vosso álbum se pode encontrar esse elemento feminino?

Bem, eu não lhe chamaria elemento feminino, haha, mas tens razão. Em quase todos os álbuns de Grabak, há, pelo menos, uma mulher “malévola” perpetuada numa imagem ou numa palavra. É evidente que eu tenho alguns problemas psicológicos graves, visto que me cruzo frequentemente com mulheres capazes de ações destrutivas. Há alguns exemplos do passado: por exemplo, em “Furia” e “The Beauty in a Gorgon’s Eye” [do álbum «Agash Daeva», de 2007], e “Sinnocence”, em “Blood Line Divine”. Vai ver as ilustrações na capa de «Agash Daeva» ou «Sin» [de 2011] e vais aperceber-te disso, também.

 

 “A ideia subjacente a essa imagem [capa do álbum] é perverter ou inverter o conceito de que um homem crucificado possa ser a base de um movimento religioso.  […]”

 

Esta imagem foi criada pelo artista gráfico ou sugeridas pelos membros da banda que escreveram a música e as letras?

Bem, vi uma foto para promover um filme de horror, em que se via uma rapariga pendurada de cabeça para baixo. A pose dela fascinou-me de tal maneira que eu comecei a pensar na forma de criar uma imagem semelhante com uma mulher crucificada de cabeça para baixo. Por conseguinte, entrámos em contacto com um estúdio local de bondage, construímos uma cruz de madeira e encontrámos uma “vítima” voluntária para fazer as fotografias. Como podes imaginar, esta situação acarreta alguns riscos para a saúde, porque o sangue aflui à cabeça e, portanto, ao cérebro. Fizemos várias sessões de fotografia, usando sangue, arame e variadas roupas. Levámos algum tempo a satisfazer as nossas necessidades, mas ela enfrentou corajosamente a provação – sofrendo em silêncio. A foto final foi enviada ao Dan Verkys, que fez a magia. Depois de todo o processo, que demorou dois anos, continuamos encantados com o resultado.

Mulheres e homens reagem de forma diferente ao álbum?

Nunca pensei nisso. Na minha opinião, não há grande diferenças entre homens e mulheres no que diz respeito a isso. Tivemos comentários de várias fãs, que gostaram imenso de todo o álbum e afirmar estar constantemente a ouvi-lo.

 

Este é o vosso sexto álbum e nele apresentam uma nova formação. Como é que os novos membros se envolveram no processo de relacionar «Bloodline Divine» com os vossos outros álbuns e, em simultâneo, de o diferenciar deles?

Tivemos de enfrentar enormes mudanças nos últimos 5 anos. Antes desse momento, a nossa formação caracterizou-se pela constância. À primeira vista, esta permanência pode parecer uma vantagem, mas, por outro lado, os novos músicos trazem sangue novo às nossas veias sedentas. Desde 2011, trabalhámos com três bateristas até termos finalmente encontrado o B. S. Está sempre pronto a aprender novas técnicas e totalmente envolvido na banda e até na escrita de novas canções. Isso torna a sua presença muito especial. Além disso, o Recke, o nosso guitarrista de longa data e fundador da banda, abandonou-a. Para que saibas, ele sempre tocou baixo de uma forma extremamente distorcida e ocupou o lugar de nosso segundo guitarrista. Quando andávamos a procurar um novo guitarrista, encontrámos o R. B., que tocou para nós em “Seelensammler”, “S.T.U.K.A.” and “Phoenix” [do álbum «Blood Line Divine»]. Separámo-nos por várias razões, mas mantivemos uma relação de irmãos de armas. O seu sucessor é o C.L., que trouxe consigo as suas influências. Como vês, «Bloodline Divine» é uma amalgama musical. As seis cordas muito simplesmente permitem uma maior variedade em termos de composição e de arranjos para as canções e é assim que tu podes agora ouvir o nosso novo disco.

 

Já têm vários concertos anunciados. Vão tocar com outras bandas?

É claro que vamos tocar com outras bandas. Gostamos de partilhar o palco com outros músicos, beber umas cervejas e passar uns tempos agradáveis, apesar de as digressões serem duras. Em março, vamos fazer uma mini digressão com Ad Hoc, Antimensch e Rebel Souls (SPA) e estamos ansiosos por lá chegar.

 

Já tocaram em Portugal ou com bandas portugueses?

Tanto quanto me lembro, tocámos num festival com Moonspell, mas foi essa a única vez que partilhámos o palco com uma banda portuguesa. Infelizmente, nunca tocámos em Portugal. Portanto, se quiserem ouvir-nos aí, telefonem-nos ou contactem-nos por mail ou no Facebook. Encontraremos maneira de circular nas estradas portuguesas e ocupar os vossos palcos. Desfiamos os organizadores e promotores a contactarem-nos!!!

 

Como vêem o futuro de Grabak agora renascida após o interlúdio forçado que teve início em 2011?

Bem, hoje em dia estou mais convencido de que não haverá um silêncio prolongado de seis anos antes da saída do nosso novo material. Estamos ansiosos por compor e tocar, apesar de estarmos a chegar ao vigésimo terceiro aniversário da nossa existência. Além disso, a Massacre Records é um parceiro de peso e apoia-nos de todas as formas possíveis. Até ao momento, estou convencido de que em breve iremos encontrar a inspiração necessária para dar um sucessor a «Bloodline Divine».

Talvez até seja isto que distingue Grabak das outras bandas. Conseguimos sempre levantar-nos sempre e cuspir imundície e sangue depois de termos caído.

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