Infaust – (Anti)esbatimento

Aparentemente morreram, mas regressaram ao nosso convívio, com um novo álbum que reflete sobre o lado passageiro de tudo.

Info: Infaust
Entrevista: CSA

A Eisenwald parece que tem pessoal especializado em “desenterrar” talentos na área do Black Metal. E, aparentemente, a Turíngia é um bom local para os encontrar. Há alguma relação especial entre o vosso local de nascimento e este subgénero do Metal?
L. Sturm – Bem, esta pergunta tem piada, porque eu sou o único membro da banda que NÃO nasceu na Turíngia. Mas posso dizer-te que a Turíngia tem uma cena underground Black Metal absolutamente vital, portanto há mesmo uma ligação entre este estado e esse género musical. Na minha opinião, podes ser inspirado pelo teu local de nascimento ou pelo lugar onde vives, quaisquer que eles sejam. Mas penso que a beleza da paisagem da Turíngia é comovente, perturbadora e inspiradora, para quem está aberto aos sentimentos que estas imagens podem fazer surgir. Se a Turíngia é mais ou menos inspiradora que outros lugares é um belo tema de discussão. A Alemanha tem outras regiões belas e inspiradoras, desde as praias do Mar do Norte até aos Alpes, incluindo o que fica no meio. Calculo que não é possível dar uma resposta final a essa pergunta, dado que a ligação que mencionaste é um tanto subjetiva.

Tiveram uma paragem de 9 anos na vossa carreira. O que aconteceu (ou não aconteceu)?
Não aconteceu nada de especial. Estivemos parados durante algum tempo, mas continuámos a ensaiar e a compor canções na mesma. Tivemos que resolver vários problemas relativos à vida da banda e fizemos dois concertos com o Drom, um baterista substituto, porque o Sadistic M. decidiu fazer um interregno nessa altura. Como regressou à banda e o nosso terceiro álbum já foi lançado, podes dizer que estamos de volta e cheios de força.

De acordo com a vossa editora, o novo álbum foi “gravado e terminado entre 2011 e 2014”. Porque esperaram por 2017 para o lançar?
Já comecei a responder acima. Na realidade, não estávamos satisfeitos com o álbum no que dizia respeito ao som. Portanto, decidimos regravar as guitarras com material diferente e assim foi necessário muito tempo para fazer a nova mistura. Pode-se dizer que andávamos um tanto perdidos como banda, mas não do ponto de vista musical, apesar de também termos algumas coisas a resolver no que tocava a esse aspeto. Tivemos problemas com o artwork, porque alguns artistas decidiram que afinal não nos iam vender esta ilustração ou aquela foto, etc. Não houve disposição para discutir coisas como onde e de que forma iríamos lançar um álbum que, naquela altura, parecia condenado a ficar eternamente inacabado. Abreviando a história, regravámos as guitarras, fizemos várias novas misturas do álbum, arranjámos um novo masterizador, tratámos dos problemas do layout, etc. Tudo isto demorou o seu tempo. Estamos realmente satisfeitos por o álbum ter sido lançado finalmente.

“[…]Pode-se dizer que andávamos um tanto perdidos como banda, mas não do ponto de vista musical […]”

Como aproveitaram este longo hiato para fazer deste álbum algo especial no que toca à música?
Bem, não mudámos assim tanto a música, apenas ajustámos alguns aspetos menores, enquanto regravávamos as guitarras. Mas as canções estão basicamente como em 2011, quando as considerámos acabadas. O hiato implicou gravarmos o álbum até à exaustão, por assim dizer. Quanto mais tempo demoras a misturar um disco, mais provável é que o resultado final não seja muito melhor do que no início. De qualquer modo, agora estamos realmente satisfeitos com o nosso álbum, mas não estamos certos de que o longo hiato tenha tornado algo melhor.

Se eu percebi bem, o título do álbum significa “faded” (“esbatido”). Como contemplam este tema nas canções e nas suas letras?
Sim, essa palavra traduz bem o título. Antes de mais, há muitas coisas que são conhecidas por se esbaterem. Pensa, por exemplo, em ilustrações ou fotos, cartas e outros documentos, nas memórias – que também se esbatem. Até a vida se vai esbatendo no processo a que chamámos vida humana, que termina pela morte do corpo físico. Toda a existência se esbate e enfraquece, incluindo os seus aspetos cognitivos e espirituais. As letras das canções são todas um tanto diferentes umas das outras, porque todos os elementos da banda contribuem para a escrita e têm pontos de vista diferentes. O facto de alguém ou alguma coisa se desvanecer de uma ou outra forma – por exemplo, a sanidade que se perde ou a insanidade, a perda das inibições ou o desvanecimento dos aspetos físicos da existência devido a causas naturais ou artificiais – está presente em todas as letras de «Verblichen». Não queremos dizer mais nada sobre a nossa interpretação dos temas líricos deste álbum, porque pretendemos convidar o ouvinte a acompanhar-nos numa viagem com um fim desconhecido: queda num abismo ou subida às alturas – nunca se sabe. Mas é algo que cada um tem de explicar individualmente.

Há alguma canção que seja especial para vocês? E porquê?
Eu só posso falar por mim, mas posso dizer que estamos todos muito satisfeitos com as canções. Para mim, «Leblos» é uma canção especial, porque se assemelha a uma viagem com um fim desconhecido, com altos e baixos, e me parece muito boa em termos musicais. «Geistesgaben» é outra canção que me parece digna de atenção, porque a sua letra – escrita pelo Sadistic M. – é muito apaixonante em termos emocionais e fecha o álbum, deixando o ouvinte entregue a si próprio.

A Eisenwald afirma que vocês também se encarregaram do artwork.
– Quem fez esse trabalho?
– Trabalha só para Infaust?
– Que relação existe entre a foto da capa e o tema principal de «Verblichen»?
– A foto da capa parece-me fascinante, porque se fica à espera de ver uma mulher debaixo do véu e afinal é um homem. Quem posou para a foto?
O Mortifer (guitarrista) tratou disso com a ajuda do Sadistic M. Podes ficar a saber mais sobre o trabalho fotográfico do Mortiferf em https://de-de.facebook.com/rauschverteilungfoto/.
Ficamos contentes por saber que a arte do álbum consegue fascinar pessoas e fazê-las pensar pela sua cabeça. Não queremos influenciar a sua interpretação, pelo que não vou dizer mais nada sobre o artwork.

Suponho que não têm tocado muito nestes últimos anos. Como têm lidado com essa situação?
Rituais ao vivo são ocasiões especiais para celebrar e viver as emoções que cada um de nós experimenta quando toca este tipo de música no palco. Tal como dizes, não temos tocado muito, não temos tido oportunidade de o fazer. Por isso, ainda temos mais vontade de tocar ao vivo regularmente, pelo menos em ocasiões seleccionadas. O facto de, na audiência, haver pessoas que partilham alguns aspetos das nossas emoções aguça-nos a vontade de o fazer

“[…] O facto de alguém ou alguma coisa se desvanecer de uma ou outra forma […] está presente em todas as letras de «Verblichen». […]”

Que planos fizeram para promover este álbum? Vão tocar com algumas bandas contratadas pela Eisenwald?
A nossa editora tem realmente grandes artistas no seu catálogo, mas não temos planos nesse sentido. O facto de uma grande parte das bandas da Eisenwald serem estrangeiras suscita problemas logísticos.

Entrevistei agora mesmo uma banda de Black Metal do Reino Unido que gosta particularmente de tocar com bandas veteranas como Mayhem ou Marduk.
– Há algumas bandas com quem gostassem especialmente de tocar? Porquê?
– São bandas com quem já tenham tocado?
Na minha opinião, essa mentalidade de “tocar por tocar” com que tens de alinhar para te juntares a bandas maiores suscita pouco interesse pela ideia de tocar com “veteranos”. Mas gostámos muito do concerto com Darkened Nocturn Slaughtercult, porque eles levam muito a sério tocar o mesmo tipo de música que nós. Gostamos muito da atitude deles: “no bullshit, just Black Metal”.

Conhecem Portugal? Alguma banda, algum local, algum festival?
Mais uma vez, só posso falar por mim. Nunca fui a Portugal, portanto não conheço nenhum local, nem nenhum festival no teu país. Mas tenho grande interesse em conhecer a cena (Black) Metal portuguesa, portanto, se houver alguma oportunidade de tocar aí, nós estamos interessados. Tenho de admitir que não conheço muitas bandas portuguesas além de Moonspell ou Corpus Christii, por isso ir tocar aí seria uma oportunidade de conhecer mais bandas.

Uma última curiosidade: porque chamaram Infaust à vossa banda? O que significa esse nome para vocês?
Esse nome foi escolhido uns bons anos antes de eu me ter juntado e eles em 2005, portanto não te posso dar grande informação sobre isso. Mas talvez ajude dizer-te que infaust é um termo médico latino que significa que o prognóstico é desfavorável. Como a Humanidade anda constantemente a autodestruir-se, este nome parece-me mais do que adequado.

 

 

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