Julian Cuvilliez [Ar Bard] – Bardos dos tempos modernos

Para nós, a lira é um instrumento que conhecemos das páginas de “Astérix, o Gaulês”. Para eles, é um objeto de investigação, artesanal e musical para promover uma antiga cultura do território francês.

Info: https://www.facebook.com/atelierskald/https://www.facebook.com/arbard.music/
Entrevista: CSA

Antes de mais, gostaria de ficar a conhecer um pouco da história do instrumento que fabricam na vossa oficina.
Julian Cuvilliez – A lira gaulesa é um instrumento extremamente antigo, presente nas culturas gaulesas e celtas pelo menos desde a Idade do Bronze.
Os textos e as recentes descobertas arqueológicas dizem-nos que era um instrumento sagrado, que apoiava a memória dos povos numa cultura que não utilizava a escrita, servindo-se apenas da oralidade, em que a música se inscreve. Esta funcionava como um registo mnemotécnico que, através do canto, permitia reter a história da nação, a genealogia dos reis, os feitos dos heróis, a mitologia e os deuses.
Em 2014, pusemos fim a um primeiro ciclo de investigação, que nos permitiu fazer com que o Estado francês reconhecesse oficialmente a lira e garantir que o seu ensino fosse retomado nas escolas de música.

Em que regiões da Europa o podemos encontrar?
Em todas as que correspondem ao antigo território gaulês e celta (França, Bélgica, Suíça, uma parte da Espanha e da Alemanha).

É possível encontrar noutros continentes instrumentos semelhantes à lira?
A lira existe – sob outras formas – em todo o território indo-europeu e em África.

“A lira gaulesa é um instrumento extremamente antigo, presente nas culturas gaulesas e celtas pelo menos desde a Idade do Bronze.”

Como tiveram a ideia de fabricar instrumentos que evocam Astérix e sobretudo o bardo que nunca tinha o direito/a oportunidade de cantar?
A minha vocação não tem nada a ver com Astérix, apesar de gostar muito dessa banda desenhada como toda a gente.
Apaixonei-me por algo que está no centro da noção de sagrado dos meus antepassados.
Assim, viajei pela França para aprender as artes do trabalho da madeira e da música e fiz estudos universitários de musicologia, para me especializar na prática musical, desde a Idade do Ferro até à Idade Média. Há 15 anos que me dedico – com a minha companheira – à investigação científica – através do polo de investigação que fundámos (PRIAE: Pôle de Recherche et d’Interprétation en Archéologie Expérimentale) – e à construção de numerosos instrumentos para museus, historiadores, músicos – na nossa oficina de luthier. Também promovemos este instrumento antigo através da participação em conferências internacionais (no Musée d’Archéologie Nationale de St Germain en Laye, em França, e no Musée de Constance, na Alemanha, etc.) e de intervenções junto das crianças nas escolas da Bretanha. A nossa iniciativa mais recente foi a criação da banda Ar Bard, que, 2000 anos depois da sua época, faz da lira um instrumento musical do nosso tempo.

Têm um modelo para construir liras ou analisaram instrumentos para redescobrir como se faz?
Há 15 anos que nos dedicamos a esta atividade e o nosso polo de investigação em Arqueologia Experimental ajudou-nos a encontrar resposta para muitas perguntas.
De facto, com o apoio de 40 investigadores internacionais, reconstruímos os instrumentos dos gauleses, a fim de os podermos construir novamente, mais ou menos de acordo com as condições da época. Fazemos recolha de pólen no solo, para determinar que espécies de árvores existiam na época dos gauleses e, para identificar as formas (dos instrumentos), estudamos os textos antigos que fazem referência a eles e os artefactos conservados em diferentes museus. Desta forma, conseguimos construir instrumentos muito próximos dos que existiam antigamente.

E como se faz isso?
É um trabalho manual extremamente minucioso.

Sei que tens alunos. Ensinas-lhes apenas a técnica de construção ou também aprendem contigo a toca lira?
O Estado confiou-nos a primeira turma experimental consagrada à aprendizagem da lira gaulesa. Em 2017, face ao sucesso desse curso e tendo em conta o número de inscrições, criámos a Lyre Academy.

Recebem algum subsídio do Estado e/ou da região para apoiar a vossa atividade artesanal, artística e de investigação?
A região apoia-nos, o que nos ajuda na nossa investigação e nos facilita o acesso aos dados necessários

“[…] era um instrumento sagrado, que apoiava a memória dos povos numa cultura que não utilizava a escrita […]”

Como aprendeste a tocar lira?
Sozinho, com muita paciência e paixão.

Ouvi o álbum «Aremorica» que o vosso parceiro – a editora Finisterian Dead End – disponibilizou. Gostaria de saber:
– Quem são os membros da banda Ar Bard?
Julian Cuvilliez, lira e voz; Marion Le Soliec, lira; Jannick Reichert, baixo; John Hellfy, bateria; Sven Vinat, guitarra; Xavier Soulabail, guitarra.
– Como foram criadas as canções desse álbum? [Algumas faixas fazem pensar em canções tradicionais e outras parecem ser canções modernas acompanhadas pelas vossas liras.]
De facto, algumas das faixas correspondem a canções tradicionais da Bretanha, que recolhi junto de autores antigos. É o caso de “Luskellerez” e “Marzin en e Gavel”.
Outras são composições relativas ao período da invasão romana e à Armórica e relatam feitos guerreiros da última nação livre a Gália face a César.
– Onde dão os vossos concertos?
Fazemos poucos (de 3 a 5 por ano), porque escolhemos lugares atípicos e efémeros, que correspondem ao nosso universo ou então determinados festivais.
– Qual é o público habitual dos vossos concertos?
A comunidade Metal, mas também alguns apaixonados pela História, pela cultura celta e por ambientes sagrados e ancestrais.
– Também fazem concertos no estrangeiro?
Sim.

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