Entrevista com Tarja Turunen

Tarja Turunen (Credit: Tim Tronckoe)

Tarja - Innocence

Olá, Tarja! Estou encantado por te conhecer, apesar de virtualmente. É um grande prazer para mim entrevistar uma das mais célebres vozes femininas na história da música.
Tarja Turunen– Obrigada!

A primeira pergunta (como não podia deixar de ser) é para saber por que razão fizeram uma prequela do álbum e não o tradicional CD duplo ou EP, por exemplo.
Um duplo CD seria muito para o fãs suportarem e seria complicado ouvir todas as músicas sem perder o interesse. Eu sugeri à editora o lançamento de um EP, mas como tinha tanto material em mãos (até temas que escrevi enquanto fazia o álbum), decidimos lançar outro álbum, que pudesse representar o novo álbum antes deste ser lançado. Não queria lançar estes temas como bónus ou lados – B para países diferentes, nem esperar anos pelo lançamento do próximo álbum para as incluir nele.

Uma vez que o lançamento de «The Shadow Self» está previsto para 5 de agosto, o que nos podes dizer sobre a forma como «The Brightest Void» está a ser recebido?
Tenho feito uma enorme promoção para ambos os álbuns durante este verão e incluído temas destes nas setlists dos meus concertos em festivais. Tem sido óptimo ver como as pessoas têm acompanhado a minha criatividade e apoiado o meu trabalho. Eu tenho fãs muito leais. É uma bênção!

As capas destes álbuns revelam que não são independentes. Podemos considerar que um deles é uma extensão do outro?
«The Brightest Void» deixa antever o que nos espera em «The Shadow Self». Os temas foram escritos para um álbum apenas durante um dado período de tempo. No entanto, acabei por escrever temas a mais para apenas um álbum e, então, eu e a editora tomámos a decisão de lançar dois álbuns completos. Eles completam-se um ao outro. Normalmente, é mais comum a lançar um álbum de bónus após o lançamento do álbum real, mas desta vez decidi que ia ser diferente.

Ao ouvir ao dois álbuns, pareceu-me que «The Shadow Self» é mais pesado e tenebroso que «The Brightest Void». Concordas?
Concordo contigo. Fiz isso intencionalmente.

Vou começar pelo tema de abertura: “Innocence”. Parece-me que é a melhor faixa de ambos os álbuns. Adoro a intro e o interlúdio de piano no meio. Parece-me que tem uma mensagem muito forte, Vi o video com a minha filha, que tem 10 anos, e constatei que a primeira elementos que lhe chamou a atenção foi a imagem, não a música. Ela perguntou-me qual era o tema da canção e eu disse que não sabia e pedi-lhe para ela pensar. Ela respondeu: violência doméstica. Apesar disso, gosta muito da canção! Era esta a mensagem que pretendias passar?

Eu acho que o vídeo fala por si só.

O vídeo é absolutamente fantástico e complementa perfeitamente a canção. Aquele momento imprevisto no fim é demais. Há algum significado especial no facto de, quando agarras o braço do homem, este ficar preto e branco?

A ideia é deixar que o ouvinte encontre o seu próprio significado.

Nestes dois álbuns, tens alguns convidados muito especiais: Michael Monroe, Chad Smith and Alissa White-Gluz (entre outros). Como conseguiste a oportunidade de trabalhar com eles?
Conheci o Michael através do nosso “The Voice” (Finlândia). Tornámo-nos amigos e trabalhámos no programa durante os últimos anos como mentores. Porque queríamos selar a nossa amizade, escrevemos e gravámos um tema – “Your Heaven and Your Hell” – durante a segunda temporada de “The Voice”. Chad Smith é um amigo do meu baixista Kevin Chown, que já há muitos anos me falou na hipótese de trabalhar com ele, o que só agora foi possível fazer. Fiquei realmente contente por ele ter participado nos álbuns. Quando acabei de gravar as partes vocais de “Demons In You”, senti a falta da agressividade vocal da Alissa. Eu não tenho conhecimentos suficientes para fazer aquele tipo de voz, nem me atreveria a tanto. Obviamente fiquei contente por ela ter aceitado o convite: a música precisava daquele impulso de energia extra que ela tão bem lhe soube dar.

Outro aspeto de que gostei muito tem a ver com as versões de “House Of Wax” (de Paul McCartney), “Supremacy” (de Muse) e o tema “Goldfinger” (de Shirley Bass, para o filme do mesmo nome da série James Bond)… que inclui uma surpresa. Porque escolheste estas canções? Algum destes artistas é uma influência para ti?
Há muito tempo que sou fã dos filmes de James Bond e das suas bandas sonoras. Eu cantei “Goldfinger”, há muitos anos, num programa de televisão, e, nessa ocasião achei o tema muito difícil de interpretar. Agora, finalmente, senti que estava pronta e com confiança para o cantar e decidi incluir nos concertos da digressão pela América do Sul a mesma versão que pode ser ouvida no CD. Tivemos grandes momentos nessa digressão e, por isso, logo a seguir decidi gravar “Goldfinger” para incluir no álbum.

Achei curioso haver duas versões de “Eagle Eye”. Por que aconteceu isso?
Como tenho excelentes músicos a trabalhar comigo, quis mostrar como ficariam os temas com as suas contribuições e de acordo com a sua sonoridade e estilo de tocar.

No site de «The Shadow Self» – http://www.tarja-theshadowself.com/ – há uma letra (talvez um poema) que inclui algumas passagens de “Eagle Eye”. Foste tu que escreveste esse texto?
Sim, eu escrevi a música e a letra, com o meu amigo Pauli Rantasalmi.

É o teu irmão que canta essa canção contigo?
Sim, Toni Turunen é o meu irmão e canta comigo em “The Living End” e “Eagle Eye”.

Para ser franco, parece-me que, se «The Shadow Self» é mais pesado, a versão que figura em «The Brightest Void» devia estar nele.
E eu aceito a tua opinião. Como já referi, todas as canções de «The Brightest Side» podiam estar em «The Shadow Self», mas fui eu que decidi quais as que iam ficar em cada um.

Pus-me a pensar em que artista ou banda poderia misturar música clássica e (Heavy) Rock da forma como tu o fazes. Alguns álbuns são clássicos, mas menos pesados, outros são ao contrário, mas a quantidade é sempre perfeita. Vês-te a fazer um álbum sem a parte clássica? Porquê?

Já encontrei o meu som próprio e afirmei a minha identidade como artista, portanto ser-me-ia difícil mudar radicalmente o estilo das minhas produções. O conhecimento que tenho da música clássica ajuda-me muito a fazer os arranjos orquestrais incluídos nos meus álbuns de Rock, entre muitas outras coisas. Enquanto escrevo as canções, estou sempre a deixar-me inspirar por bandas sonoras de filmes ou música clássica. E Preciso de ter um “arco” melódico nas minhas canções para suportar a minha voz lírica. Gosto de acentuar o lado Rock de algumas canções, com a ajuda da minha banda pesada e melodiosa, mas o lado sinfónico faz-me sempre falta.

A forma como vês a música e a fazes mudou depois do nascimento da tua filha?
É claro que a minha vida é a maior inspiração para a minha música, até porque esta está sempre presente no meu qutidiano. O nascimento da minha filha fez de mim uma mãe super orgulhosa e feliz e certamente essa alegria reflete-se na segurança que também podes ouvir nos meus álbuns.

Pensas que ela seguirá as tuas pisadas e será uma cantora como tu?
Vou adorar vê-la descobrir a grande paixão da sua vida, independentemente do que for. Eu tive a oportunidade de decidir o que ia fazer na minha vida, logo quero que o mesmo aconteça com a minha filha.

Vocês vão tocar em Portugal a 4 de novembro e eu tenciono levar a minha filha a esse concerto, Ela tem de ouvir boa música. O que podem os fãs portugueses esperar de vocês?
Vou apresentar o novo «The Shadow Self», mas também canções de todos os meus outros álbuns. A produção vai ser maior desta vez, com ecrãs coloridos, para ilustrar os tons do meu último álbum. Vai ser muito emocional e atmosférico, como os meus concertos de Rock costumam ser.

Se tivesses de optar entre o Rock e a música clássica, qual escolherias e porquê?
Esses estilos musicais completam-me. Não gostaria de ter de optar por um deles em detrimento do outro, porque já trabalho com ambos há muito tempo e consegui criar uma harmonia artística entre eles.

Os meus compositores clássico favoritos são Mozart, Verdi, Bizet e Wagner. Quais são os que te influenciaram mais?
Gosto de muitos compositores clássicos, mas, quando se trata de cantar, os meus favoritos são Puccini, Schumann, Sibelius e Rachmaninof entre outros.

Muito obrigado por esta oportunidade de te entrevistar. Tenho de ser honesto e admitir que precisei de ouvir ambos os álbuns várias vezes para conseguir apreciá-los verdadeiramente. Mas «The Shadow Self» já faz parte da minha lista dos melhores de 2016!

Obrigada. Fica bem e vemo-nos em Lisboa, em novembro.

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