Entrevista Riverside

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INÍCIO DE UMA NOVA ERA

 

Dois mil e dezasseis foi trágico para os Riverside: Piotr Grudziński partiu. Musicalmente, os Riverside viram o nascimento de «Eye of the Soundscape». Mariusz Duda concedeu-nos vinte minutos do seu tempo, afável, simpático, comunicativo e eu fiz uma das melhores entrevistas desde que trabalho para a Versus.

Olá, Mariuz. É um prazer conhecer-te, ainda que seja apenas de forma virtual. É a segunda ou Terceira vez que tento entrevistar-te e, finalmente, consegui. Parabéns por estes dois lançamentos e sobretudo por «Eye of the Soundscape».

Antes da entrevista propriamente dita, gostava de dar a minha opinião (pessoal) sobre alguns aspectos da mensagem que deixaste no facebook.
Primeiro: penso que a minha opinião é semelhante à de quase toda a gente em Portugal… e também no resto do mundo (risos): Sim, vocês têm de fazer uma digressão! Riverside é uma banda muito especial e os fãs precisam de vos ouvir ao vivo e, nestes tempos difíceis, estou certo de que vos acolherão de braços abertos.
Segundo: a história de Riverside não acaba aqui e eu penso que está para começar um novo capítulo da mesma. As pessoas vão apoiar-vos incondicionalmente e adorar a vossa música, independentemente do seu grau de experimentalismo. (risos) Penso que a música que criam é muito autêntica. Portanto, terão todos o meu apoio e também o da Versus Magazine.
Mariuz – Muito obrigado. Isso é muito importante para nós.

Passemos agora à entrevista. Tenho andado a ouvir «Eye of the Soundscape» e, embora não consigamos dissociar as palavras dos números, dou-vos 9.9 em 10. A reacção dos media é semelhante à minha?
Ainda não sei! Essa é a tua opinião pessoal. Este álbum não é “amigável”, surge como uma colecção de canções velhas e novas. Para nós é muito importante, porque, dadas as circunstâncias, representa o fim de uma era para a nossa banda.

A razão pela qual vos dou 9.9 é a seguinte: por que não há um 5.1 Mix como «Love, Fear and Time Machine»?
Não tivemos tempo para o fazer (risos). Essa mistura de «Love, Fear and Time Machine» era uma espécie de experiência para nós e queríamos tentar ver como isso funcionava, quando começámos a fazer «Eye of the Soundscape». Dadas as circunstâncias, foi muito difícil para mim acabar este álbum. Num futuro próximo talvez a gente volte a esta experiência do 5.1.

Neste álbum têm quatro faixas novas. São músicas que já tinham feito mas que ainda não tinham sido lançadas ou foram gravadas expressamente para este álbum?
Sim, é verdade. Mas, antes de falar sobre isso, preciso de dizer algo sobre este álbum novo. Quando fizemos a primeira faixa instrumental como bónus para «Rapid Eye Movement» e a canção que corresponde ao título, divertimo-nos imenso e apostámos na improvisação, sem ultrapassar barreiras. Sentimos que não precisávamos de ser uma banda Prog ou de Rock para fazer isso, limitámo-nos a usufruir do que fazíamos. Foi muito porreiro! E quando começámos a fazer o mesmo com «Shrine of the New Generations Slaves», por exemplo, com as «Night Session» e, mais tarde, com «Love, Fear and the Time Machine» com as «Day Session», percebemos que precisávamos de fazer um álbum com essas faixas, sob a forma de compilação, porque muitas pessoas nem sabem que temos músicas assim. Com base nesta ideia, já se pode olhar para a nossa música de pontos de vista diferentes…agora tornámo-nos um pouco maiores por nos ocuparmos de influências, de estilos… géneros, como quiserem. Mas eu não queria lançar algo que seja igual ao que fizemos até agora. Portanto, tivemos que adicionar algo novo e estas quatro canções vieram preencher os espaços, suprimir uma lacuna. É muito fácil, quando fazes um álbum instrumental, em que tens 20 ou 25 minutos e faixas separadas. Mas, quando ouves o álbum todo, precisas de ter um princípio e um fim… e algo entre eles que te ajude a ficar “acordado” ou a achar a música uma seca Queríamos fazer algo que melhorasse o espírito do álbum, do princípio ao fim.

A capa do álbum também é fantástica. Adorei os “desenhos infantis” do Travis Smith. Por que usou esse recurso? É um rio ou um cisne? Umas vezes vejo um e outras vejo o outro…
… às vezes o pacman (risos).

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O que representa a capa?
Antes de mais e principalmente, temos de ver a expressão «Eye of the Soundscape»… o título… há em Inglês a palavra “landscape”, que se refere aos campos. Com base nela, quisemos cunhar uma outra palavra que traduzisse a mesma ideia, mas aplicada à música… ao som… Tínhamos andado a discutir o artwork para o álbum com o Travis e dissemos-lhe que queríamos seguir o caminho iniciado com «Love, Fear and the Time Machine», porque nesse álbum havia coisas que pareciam feitas por mãos de crianças, que se assemelhavam a desenhos infantis e gostávamos delas. Eu sempre vi a nossa música como algo cheio de cor, não como algo escuro. Quando fizemos a música, gostámos muito deste aspecto. Eu sei que muitas pessoas ficaram surpreendidas quando viram as cores na capa do álbum, porque estavam à espera que fossem escuras. Mas a nossa música não é tenebrosa, muito menos em «Eye of the Soundscape». Foi isso que o Travis teve em conta ao criar a capa. Ele é um artista extraordinário, tão bom a fazer material metaleiro para bandas como Opeth e Katatonia como a fazer “desenhos infantis” para Riverside (risos).

Quando sentiram que tinha chegado a altura de lançarem um álbum como este?
A quantidade de faixas instrumentais era realmente enorme! (risos) Quando começámos dizíamos vinte minutos aqui, vinte e cinco ali. Boa, podemos fazer um álbum a partir disto. Ficámos verdadeiramente abismados. Mas depois… pareceu-nos que era preciso acrescentar algo, para dar às pessoas a certeza de que era algo de boa qualidade (risos).

Este álbum tem muitos elementos, ou seja, aquilo a que eu chamo “camadas”. Muitas partes eletrónicas, muito som ambiente, até um saxofone (por exemplo, em «Night Session – Part 2»). Quem escreveu e programou essas partes, quem toca o saxophone? Há outros instrumentos diferentes no álbum?
Quem tocou o saxofone foi o Marcin Odyniec, que também está no «Shrine of New Generation Slaves», na faixa intitulada “Deprived (Irretrievably Lost Imagination)”. Parece-me que foi uma ideia genial chamá-lo novamente, porque ele é um músico extremamente talentoso.

Música com tantas partes electrónicas, sons ambientes e efeitos… “insensitiva”. No entanto, vocês conseguem fazer com que o álbum soe muito orgânico, de tal modo que eu me sinto muito confortável ao ouvi-lo. Como é fazer canções assim?
É tal e qual como dizes. Porque quisemos lançar este álbum? Não só porque o criámos e gravámos, mas também porque sentimos que era algo novo, pouco usual. Sentimos que podíamos ultrapassar os limites associados aos nossos outros álbuns. Se fazemos parte de um mundo Rock, temos de nos guiar por regras ligadas ao Rock. Aqui podemos improvisar durante cinco minutos e isso parece-nos fantástico. Mas atenção: isto não é música electrónica pura. Não sou grande fã de música electrónica moderna. Penso que o que é original em «Eye of Soundscape» é o facto de termos feito experiências com instrumentos electrónicos e outros. Há nele muitos baixos, guitarras acústicas, a minha voz, vocais bizarros. Parece-se com algo como o que Mike Oldfield ou Boards of Canada fizeram. Também fomos muito influenciados por Dead Can Dance e Jean-Michel Jarre e outras coisas que eu costumava ouvir no passado. E foi toda esta mistura que deu ao álbum um cunho tão original.

O que é o Amor – “Love” para ti?
Ó meu deus! (Risos) Se ao menos as questões mais simples não tivessem as respostas mais complicadas… (Risos) O amor é algo que não pode ser expresso por palavras, apenas por sentimentos e, para mim, é aquilo de que mais precisamos.

De que tem mais medo –  “Fear”?
Tenho a certeza de que morrerei sozinho, rodeado pelos meus discos.

O que gostarias de levar contigo na máquina do tempo – “Time Machine”?
(Risos) Todas as pessoas que já não estão comigo. Ou então usava-a para as trazer de volta.

Vocês são da Polónia e tenho a certeza de que posso dizer que são a banda que melhor representa o vosso país (talvez com Vader e Behemoth). Como é para uma banda nascer e crescer até se tornar numa das mais importantes da cena Prog?
Achas mesmo que somos uma das bandas mais importantes? Eu não nos vejo assim tão representativos…

… Tenho de discordar de ti. Penso mesmo que são uma das bandas mais importantes na cena Prog (risos).
Obrigado (risos)! És muito simpático. Sinto-me muito feliz, porque isso me vai dar a oportunidade de gravar um álbum como «Eye of the Soundscape», mas vou ter medo do público. Vão dizer: “Ui! Mas que coisa maçadora! Onde está o Metal neste álbum?” (risos).

Não penso que isso vá acontecer…
Digamos que estamos mais maduros, mais velhos (risos). Mas isso é formidável! É bestial ser uma banda assim!

 

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