God Dethroned – Metal e trincheiras

Atualmente a banda holandesa usa a sua música para refletir sobre a sangrenta Primeira Guerra Mundial.

Entrevista: CSA

Info: God Dethroned

Olá! Como descreverias o momento presente da vida da tua banda?

Mike Ferguson – Estamos a atravessar um bom momento. O nosso álbum novo – «The World Ablaze» –  foi muito aplaudido, tanto pelos fãs como pela crítica. Agora estamos a procurar fazer o máximo de concertos que pudermos. Actualmente, estamos a marcar concertos para o outono e já para 2018.

 

Imagina que tens de apresentar a atual formação da tua banda. O que dirias sobre cada um dos seus membros?
Há muito tempo que conheço o Michiel van der Plicht. Tocámos juntos na minha banda antiga – Detonation – e juntos gravámos o álbum «Reprisal». Somos amigos de longa data. Ele é o melhor baterista que conheço e também um tipo fixe e engraçado.

Henri Sattler é a espinha dorsal da banda e o responsável pelo controlo da qualidade em God Dethroned. A sua maneira singular de compor e de tocar guitarra é o que faz o som de God Dethroned. Eu limito-me a tentar apresentar ideias a inserir no template que ele criou. Também é um gajo porreiro, com quem se convive bem.

Conheci o Jeroen Pomper no meu primeiro ensaio com a banda. É um excelente músico com uma voz magnífica para o Death Metal. Também é um indivíduo descontraído e divertido.

 

E como te vês a ti próprio?

Acho que sou uma pessoa fácil de gerir. Levo muito a sério a arte de tocar guitarra e adoro compor material novo. É mesmo o que eu mais gosto de fazer. É maravilhoso criar algo novo a partir do nada. Gosto de trabalhar em equipa, sou pouco dado ao egocentrismo. Sou da opinião de que se faz muito mais e melhor, se se estiver disposto a ceder um pouco [para encontrar um consenso]. Prefiro compor música de forma colaborativa, porque dessa forma consegues sempre criar algo que nunca seria capaz de fazer sozinho. E isso é super especial.

 

[…] Prefiro compor música de forma colaborativa, porque dessa forma consegues sempre criar algo que nunca seria capaz de fazer sozinho.  […]”

 

Sinto uma grande fascinação em relação à Primeira Guerra Mundial. Porque escolheram este acontecimento histórico para tema central da vossa trilogia? Geralmente associa-se esta guerra à França, ao Reino Unido, aos EUA, à Alemanha, mas não à Holanda.

Sempre pareceu ser uma guerra esquecida. Nas nossas escolas, fala-se muito mais da Segunda Guerra Mundial do que da Primeira, porque a Holanda mante-se neutra durante esta. Essa época sempre me fascinou. Vi um filme intitulado “A oeste nada de novo” e depois li o romance q         ue lhe deu origem e que continua a ser a minha obra favorita de literatura ligada ao tema da guerra. As batalhas eram tão brutais e sangrentas que fazem dessa guerra um tema ideal para uma banda de Death Metal. É fundamental para nós ter uma perspetiva global da guerra e documentar o horror das trincheiras, da doença, dos ataques com gás, que os soldados tiveram de suportar.

 

A vossa editora afirma que fizeram investigação sobre este tema para cada álbum. Onde encontram a informação de que precisavam? Tiveram ajuda de alguém?

Sei que, para fazer os dois álbuns anteriores, o Henri foi a Ypres, para investigar e visitar os museus e os locais históricos. Para este álbum, viu montes de documentários e leu muito online. Passei-lhe alguns filmes sobre a Primeira Grande Guerra de que gosto e o romance “A oeste nada de novo”. Não tivemos qualquer ajuda de alguém fora da banda. O Henri pretendia sobretudo traçar um retrato da vida do soldado da Primeira Guerra Mundial nas trincheiras.

 

Há alguma evolução, algum tipo de lógica que ligue os três álbuns que tratam deste triste e sangrento episódio da História recente?

Tanto quanto eu sei, para cada um deles fez-se o melhor que era possível na altura em que surgiu. Portanto, não penso que haja qualquer ligação entre os álbuns, para além do conceito central: a Primeira Grande Guerra.

 

Que tipo de relação há entre eles no que diz respeito à música?

«Passiondale» trata da batalha de Passchendaele e tem um lado brutal, mas também um lado triste e melancólico que se reflete na sua música.

«Under the Sign» refere-se sobretudo à máquina de guerra que destrói tudo à sua passagem. A música reflete esta aspeto através do recurso a blast beats bem rápidos.

«The World Ablaze» apresenta uma combinação desses elementos. É rápido e melancólico e tem mais groove que os outros dois.

 

Este vosso álbum parece muito maduro (o que não é surpreendente numa banda como God Dethroned). Que ingredientes da vossa experiência musical e influências combinaram para criar este complexo álbum?  

Basicamente todos. O Henri tem um bom ouvido para o tipo de riffs que se adequa mais a God Dethroned. Eu limito-me a escrever uma carrada de riffs e o Henri ouve-os e escolhe os que servem para a banda. A partir desse material, construímos as canções. O Henri acrescenta os seus próprios riffs e ideias e é assim que as faixas vão surgindo. Ele já tinha escrito duas canções e escreveu mais duas para acabar o álbum. Portanto, em God Dethroned, algumas canções são escritas pelo Henri e outras por mim. Quando sou eu que as componho, ele acrescenta os seus elementos. Quando é ele que as escreve, eu acrescento os meus solos ou leads.

 

“[…]As batalhas eram tão brutais e sangrentas que fazem dessa guerra [Primeira Guerra Mundial] um tema ideal para uma banda de Death Metal. […]”

 

Que bandas gostas de ouvir?

Exerço a profissão de professor de música, portanto ouço todo o tipo de música. Quase sempre consigo encontrar algo de que gosto em todos os géneros. A minha música favorita é o Hard Rock dos anos 70 e 80: Dio, Led Zeppelin, Rainbow, Foreigner. No que toca a música mais pesada, as minhas preferências foram sempre para bandas suecas como At the Gates, The Haunted, In Flames, Shining. Pantera, Metallica aned Megadeth também fazem parte das minhas bandas favoritas. Mas gosto igualmente de Gyspy Jazz, da The Carter Family [County Music] e de Funk dos anos 70. O essencial para eu gostar de uma música é encontrar nela algo que me impressione,

 

Partilhas essas preferências com os outros membros da banda?

Sim. Mas penso que temos todos gostos muito diferentes.

 

Que parte desses gostos musicais passa para a música de God Dethroned?

Tudo pode ser uma influência. Mesmo géneros que não têm a ver com Metal podem influenciar a minha forma de compor de modo subtil. Recorrer a algo que está fora do teu campo de acção pode dar a um riff obsoleto uma aparência original e diferente. Portanto, basicamente eu uso todos os recursos que tenho à mão – desde os meus gostos musicais eclécticos até ao meu conhecimento de teoria musical passando pela minha mente criativa – para criar novos trechos musicais.

 

Como foi trabalhar com o Dan Swäno?

Formidável. Ele é uma pessoa com quem dá imenso gosto trabalhar. Tem um ouvido magnífico que lhe permite determinar de forma precisa como uma banda deve soar e acertou em cheio no que diz respeito à mistura deste álbum. Tem um som pesado, mas, ao mesmo tempo, muito claro. Podes ouvir exactamente o que cada um está a tocar e é disso que eu gosto.

 

A capa do álbum apresenta uma imagem “clássica” da Primeira Grande Guerra, popularizada por documentários sobre esse tema, assim como por filmes, fotos, desenhos e outras manifestações artísticas. A quem a encomendaram?

O responsável pelo layout e pelo artwork do nosso álbum foi o Hrodger. Na realidade, a capa resultou da combinação de várias fotografias sobrepostas umas às outras. Por conseguinte, é uma imagem conhecida, mas, ao mesmo tempo, também é única. Estou mesmo contente com o resultado final e penso que ele fez um trabalho fantástico.

 

 

Planearam digressões para promover este álbum?

Fizemos cinco concertos de lançamento: dois na Alemanha, um na Bélgica e dois na Holanda. Vamos participar em alguns grandes festivais como o Party San e o Dong Open Air. E temos vários concertos previstos para o outono e para 2018. Mas vamos estar atentos ao aparecimento de mais boas oportunidades.

 

Com quem gostariam de tocar?

Tocar com bandas antigas de Melodic Death Metal como At the Gates ou Hypocrisy seria fantástico para nós. Também seria formidável fazer uma digressão com Amon Amarth. Mas tudo depende de decidirmos se queremos fazer uma digressão com uma banda maior, que possa atrair mais fãs, ou se preferimos fazê-lo com uma banda à nossa medida, com quem possamos ombrear. Temos de esperar e ver que tipo de propostas nos aparece.

 

“[…] a capa resultou da combinação de várias fotografias  […] Por conseguinte, é uma imagem conhecida, mas, ao mesmo tempo, também é única. […]”

 

Vêm a Portugal? Já cá estiveram alguma vez?

Estive em Portugal com Picture, uma banda com quem costumava tocar. Sempre tive sorte em Portugal: boa comida e fãs muito leais. Não tivemos nenhuma proposta para tocar em Portugal, portanto, infelizmente, de momentos, não temos nenhuns planos relativos ao teu país.

 

A propósito, conheces algumas bandas portuguesas?

Penso que só conheço Moonspell. Se mencionasses bandas, talvez eu conhecesse algumas de nome. Mas não consigo lembrar-me de mais nenhuma de momento.

 

Qual será o tema do próximo lançamento de God Dethroned?

Há vários aspetos do mundo atual que nos perturbam, pelo que me parece que não vamos ter dificuldade em encontrar um tema que agrade aos nossos fãs. Sei que o Henri toma sempre nota das suas ideias e eu faço o mesmo. Por conseguinte, ao fim de algum tempo, teremos material suficiente para escolher canções para um novo álbum.

 

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