Ixion

Perdidos e achados no espaço

 Info: IXION e Finisterian Dead End / Metal Label

Entrevista: Cristina Sá

Nesta expressão se condensa o propósito de Ixion – uma banda francesa de Doom Atmospheric Metal – anunciado pelo seu nome.

Ixion parece-me um projeto muito virado para a ficção científica. A vossa música evoca universos um tanto fora deste mundo. Já alguma vez vos convidaram para fazer a banda sonora de um filme dessa natureza?

Julien Prat – De facto, no nosso projeto, estão presentes várias temáticas relacionadas com a ficção científica, a começar pelo espaço, que surge quase como uma “personagem”. Exploramos este imaginário através das palavras e de formas visuais, porque nos parece que isso se articula perfeitamente com as nossas composições e o nosso som. Portanto, a música vem em primeiro lugar e, devido à sua dimensão espacial e por vezes cinematográfica, projeta-se, de forma bastante natural, noutros mundos, como referiste. Seguimos essa tendência nos textos e nas imagens, a fim de construir um universo coerente! É verdade que não custa imaginar que a nossa música possa ilustrar imagens de ficção científica pré-existentes, por exemplo num filme… apesar de ninguém ainda nos ter pedido tal coisa até ao momento!

 

A editora comenta – a propósito de «Return» – que, depois de uma longa ausência, somos convidados a regressar ao planeta azul. Podemos considerar os álbuns do grupo no seu todo como uma espécie de grande narrativa

Este álbum ilustra bem a nossa maneira de trabalhar: quando conseguimos distanciar-nos destas composições e nos apercebemos do seu caráter mais tranquilo, mais “humano”, veio-nos logo à mente a ideia do regresso à Terra. Assim, tomámos decisões sobre a ordem das canções e acrescentámos alguns arranjos, de modo a aprofundar este tema. Logo, não houve nenhuma intenção premeditada para o relacionar com os outros álbuns. Talvez isto tenha criado uma grande narrativa a posteriori, mais propriamente sob a forma de sub-histórias presentes no seio de um universo. Isto faz-me pensar em ciclos literários, como, por exemplo, osXeelees” de Stephen Baxter!

 

“[…] Exploramos este imaginário [espacial] através das palavras e de formas visuais, porque […] se articula perfeitamente com as nossas composições e o nosso som. […]”

 

Este terceiro álbum é muito diferente dos outros dois? E de que forma se complementam entre si?

«Return» é, provavelmente, um álbum singular na nossa discografia: apesar de nele estarem presentes a base musical e a identidade de Ixion, há várias canções que comportam passagens mais calmas, melancólicas, mais luminosas de certa forma. Parece-me que, nessas passagens, as sonoridades, as harmonias e os vocais pendem para o Post-Rock. Neste álbum, mais do que em qualquer outro dos nossos lançamentos, a nossa música evade-se do quadro do Doom Metal atmosférico. Há nela algo de progressivo, não tanto em termos de tecnicidade, mas antes na composição musical, na estruturação das faixas, no jogo de emoções, no papel desempenhado pelos sintetizadores…

Inversamente, «Enfant de la Nuit» procurava reforçar a nossa faceta tenebrosa e fria – com uma canção como “Doom”, por exemplo – e introduzia uma abordagem mais gótica (que procurámos conservar em faixas de «Return» como “Back Home”). «To the Void» serviu para definir a nossa identidade, na esteira da demo inicial.

Não sei dizer até onde iremos, mas, de momento, a nossa música parece estar a enriquecer-se gradualmente, ao mesmo tempo que conserva uma identidade forte e fácil de reconhecer.

Qual é o conteúdo lírico do álbum, ou seja, a que se referem as letras das canções, e quem as escreveu?

Trata do regresso à Terra de uma missão espacial, depois de ter passado centenas de anos no espaço. Após uma fase de deslumbramento, que corresponde à aproximação do nosso planeta, a tripulação descobre que a Terra está coberta por um oceano global e parte à procura de sobreviventes, acabando por descobrir que a Humanidade encontrou uma nova voz…

Inventei esta história a partir de numerosas outras, que me inspiraram, mas tenho de destacar a influência dos romances “Flood Ark”, de Stephen Baxter, e do filme “Abyss”, de James Cameron.

Quem compõe a música para os lançamentos de Ixion?

Eu sou o principal compositor e o trabalho da banda nesse domínio apoia-se geralmente em pré-produções que eu realizei. Mas não se pode diminuir o valor dos arranjos: neste álbum, o Yannick fez um trabalho soberbo para conceber linhas de voz claras, sem esquecer o papel fundamental que desempenhou na produção!

 

Reparei – ao ler a notícia sobre Ixion na Encyclopaedia Metallum – que os três elementos da banda – tu, o Thomas e o Yannick – são referidos como vocalistas. O que é que essa particularidade traz ao vosso projeto?

Para «Return», eu e o Yannick fizemos um duo: ele fez a voz limpa e eu os rugidos e outros vocais extremos. Mas a perspetiva é a mesma de sempre: diversificamos muito as vozes, para que elas se adaptem da melhor forma à música e à história. Essa estratégia permite sublinhar os ambientes e as emoções, o que contribui para dar coerência ao conjunto. É uma forma de fazer com que os ouvintes se envolvam na viagem…

E depois, o trabalho de ensaiar e registar esses tipos de voz – que nós vamos buscar aos géneros musicais de que gostamos – tem um lado lúdico.

Fazem concertos?

Ainda não tivemos a oportunidade de dar concertos e, de momento, não há nada programado nesse sentido. Mas adoraríamos fazer.

Há dois obstáculos: encontrar uma formação capaz de reproduzir a nossa música no palco, sem ter de apostar excessivamente em samples, e dispor de meios visuais para a acompanhar e até ampliar o seu sentido. Dado o caráter espacial e ocasionalmente épico da nossa música, isso implicaria uma cenografia ambiciosa, que não está ao nosso alcance para já.

 

 “[…] é, provavelmente, um álbum singular na nossa discografia […] a nossa música evade-se do quadro do Doom Metal atmosférico. Há nela algo de progressivo […]”

 

E como é trabalhar com uma editora pequena como Finisterian Dead End?

Corre tudo muito bem! As suas dimensões permitem desenvolver uma grande proximidade e interatividade e trabalhar com confiança, tanto mais que vivemos na mesma região que o Laurent, o responsável pela editora. É claro que é indispensável que a editora tenha um comportamento profissional e sincero, para que a relação funcione, e é isso que acontece com a Finisterian Dead End. Por exemplo, a editora mantém ligações fortes com a imprensa, o que permite fazer uma verdadeira promoção.

 

E – para terminar – tenho muita curiosidade em saber se o nome da banda – Ixion – evoca o corpo celeste, a personagem execrável da mitologia greco-latina ou os dois.

A primeira opção! A tua pergunta é oportuna: já foi dito que nos inspirámos na mitologia, mas não é esse o caso. Referimo-nos mesmo ao corpo celeste. Tirámos essa ideia de um romance célebre: “Hypérion”.

Fechou-se o círculo, porque, no fim [da entrevista], voltamos à ficção científica!

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